Vivemos o momento mais revolucionário de toda a história. A Inteligência Artificial está reformulando silenciosamente a forma como pensamos, agimos e nos relacionamos. Nas empresas, a IA tem o poder de acelerar decisões, otimizar custos e elevar a produtividade a níveis inimagináveis. Nos governos, é a grande chave para simplificar processos burocráticos e reduzir o déficit orçamentário. A mudança do status de promessa para força inevitável já aconteceu há algum tempo, mas poucos se deram conta disso.
Enquanto a grande maioria trata a IA como uma ferramenta de automação de tarefas, a tecnologia avança a passos largos em laboratórios e grupos homogêneos, com pouca influência de vozes externas ao universo de TI. O espaço público restringe-se a debates rasos – incapazes de enxergar a transformação em curso – e a trends que tomam as redes sociais com brincadeiras que exploram a capacidade das ferramentas de IA de forma superficial.
A tendência de tratar o tema como um modismo tecnológico, como uma buzzword para palestras, produtos e relatórios, é, no mínimo, preocupante. Exemplo claro disso é a prática de IA washing, que usa a tecnologia como estratégia de marketing. Nas prateleiras dos supermercados estão shampoos que dizem “ser feitos com IA” e prometem fazer milagres nos fios. Eletrodomésticos trazem o selo “com IA” como diferencial competitivo. Mas, qual é o verdadeiro impacto disso?
Não há problema nenhum em tentar capitalizar sobre o que está em alta. Mas esse está longe de ser o maior benefício que a IA pode trazer para os negócios e para a sociedade. Ao colocar a IA em uma posição de tendência de consumo, empobrecemos um debate que é muito maior e mais importante.
A Inteligência Artificial está moldando a próxima geração de produtos, serviços, relações humanas e experiências de consumo. Ela está reescrevendo o próprio conceito de inteligência. O que precisamos é de protagonistas, lideranças e profissionais maduros, que enxerguem a oportunidade que têm nas mãos e incorporem a IA em estratégias de negócio realmente impactantes e exponenciais.
O debate precisa ser ampliado em todos os sentidos. Só teremos um futuro que abraça os interesses coletivos se, agora, lideranças C-Level, especialistas em Ética e Compliance, áreas de Marketing, Vendas e Experiência do Cliente, acadêmicos, pesquisadores, antropólogos, educadores, juristas, consumidores… participarem dessa conversa sobre a IA.
Não podemos mais perder tempo com questões que desaceleram o avanço. Qual será a postura do Brasil em relação aos questionamentos sobre a GDPR na Europa? Por lá, empresários e políticos defendem uma flexibilização da regulamentação para recuperar a competitividade perdida e reduzir o excesso de burocracia criada para pequenas e médias empresas. Nossa LGPD teve inspiração direta na GDPR. Vamos voltar algumas casas para revê-la? O quão eficiente é regulamentar algo que não se conhece profundamente e que evolui todos os dias?
A proteção de dados é crucial, mas precisa acompanhar o ritmo da inovação. A Inteligência Artificial é antônima à burocracia. Mas essa não é a única barreira. Ainda faltam cultura, mentalidade, processos e coragem para mudar. Não é difícil encontrar empresas que preferem digitar manualmente dados em ERPs, porque padronizar e automatizar parece “difícil” ou “caro”. Fluxos que nunca foram questionados, equipes de Marketing que se limitam a postagens superficiais e Departamentos de TI isolados das decisões estratégicas são mais comuns do que imaginamos. A tecnologia pode até existir, mas não é usada para transformar.

O debate não é sobre IA, tampouco sobre regulação. É sobre o exercício de pensar o futuro de cada mercado em razão das possibilidades que a tecnologia viabiliza
Roberto Meir, Publisher e CEO do Grupo Padrão
As empresas que lideram a revolução não estão apenas usando IA – estão reconstruindo suas bases. Começam adotando ferramentas já disponíveis no mercado para ganhos de produtividade, mas com a mentalidade de irem muito além disso. Com as aplicações gerando resultados satisfatórios, elas redesenham processos inteiros para gerar ainda mais impacto. Por fim, desenvolvem novos modelos de negócio nativos de IA capazes de romper paradigmas.
Não estou falando de teorias futuristas. São estratégias que funcionam em grandes empresas ao redor do mundo. Elas evidenciam que o debate não é sobre IA, tampouco sobre regulação. É sobre o exercício de pensar o futuro de cada mercado em razão das possibilidades que a tecnologia viabiliza. O segredo não está em usar IA; está em usá-la do jeito certo.
O terreno mais fértil para compreender isso é o CX. Como bem destacou Andy Jassy, CEO da Amazon, a IA generativa é a próxima fronteira da experiência do cliente e trará formatos que ainda não conseguimos imaginar. Cada interação com o cliente gera dados valiosos, e a IA depende de um grande volume de dados para ser eficaz. Sem contar a hiperpersonalização, o aumento da eficiência no atendimento e, agora, com a IA emocional, a capacidade de interpretar contextos e emoções para interações mais humanas e empáticas. Tudo isso em escala.
Enquanto estivermos presos a uma mentalidade analógica, seguiremos valorizando quem “aperta o botão” em vez de quem redesenha processos. Seguiremos confundindo solução com modismo. E seremos expectadores de uma revolução cada vez mais acelerada.
A real transformação com IA exige cultura, estratégia e coragem para romper com as velhas estruturas. Exige entender que não se trata de “aprender a usar ferramentas”, mas de mudar a dinâmica do mercado. Exige abandonar métricas vazias e focar o valor real, para o negócio e para o cliente.
A Inteligência Artificial não vai esperar quem insiste em olhar para o retrovisor e se manter em uma aparente “zona de conforto”. A bem da verdade, esses já ficaram para trás. E quem não quiser fazer companhia para eles precisa acordar de uma vez por todas.
Materia feita por: Consumidor Moderno